Melhorar para pior
Martha Medeiros
Houve uma época não muito distante em que o dia era curto demais para tanta conversa e a noite ainda mais curta para todo o resto.
Li esta expressão, “melhorar para pior”, na biografia Viver para Contar do escritor Gabriel Garcia Márquez, num trecho em que, se bem me lembro – e não lembro bem – ele falava de que havia deixado sua casa para morar num prédio, e trocado as sandálias por sapatos. Se não foi assim, o exemplo igualmente serve.
De imediato, lembro de Bombinhas, em Santa Catarina. A primeira vez em que lá passei um verão, havia apenas casas de pescadores à beira-mar, um mercadinho precário e um único quiosque de madeira onde se servia camarões e caipirinhas a um preço ridículo. Posto de saúde, só na vila de Porto Belo.
Naquela época, janeiro de 1980, se contássemos todos os guarda-sóis fincados na areia, não somariam 25. Hoje Bombinhas tem cybercafé, edifícios, mini shoppings, asfalto e vários restaurantes de rodizio de frutos do mar – com estacionamento. Se contarmos os guarda-sóis fincados na praia, somariam uns 1.843. Ô, se melhorou.
Outro dia vi uma ex-colega do colégio que tinha paixão por vôlei, jogava muito bem, era bonita, saudável, sempre de tênis, roupas esportivas, diurna, alegre. Hoje trabalha de recepcionista num restaurante, vive trancafiada num blazer riscado-giz, de salto alto, dormindo todo dia às 3 da manhã. Tem um bom emprego, não se queixa. Melhorou, sem dúvida.
Bares também melhoram. Nascem botecos pequenos, com cadeiras de palhinha, mesas de madeira, clientela fiel e um garçom que todos chamam pelo nome – Genésio, tira aí um bem gelado! Aí o dono ganha dinheiro, resolve investir, troca a iluminação, o piso, amplia a espaço, incrementa o cardápio, compra umas cadeiras de acrílico, pendura uns alto-falantes na parede, nossa, é outro bar.
Casamento nada mais é do que a evolução do namoro, aquela época de dureza em que o casal passava o final de semana acampando e, de tão apaixonados, sentiam-se hóspedes de um hotel 5 estrelas. Aquela época em que o dia era curto demais para tanta conversa e a noite curta demais para todo o resto. Aquela época de palpitações e impaciências. Depois melhora, ou não?
Impossível deter o desenvolvimento de lugares e pessoas. Puro exercício de nostalgia, está crônica. Mas é que fiquei com esta história de “melhorar pra pior” na cabeça, tentando detectar o que significa isso, e se bem entendi, melhorar para pior é quando se perde alma. Se conseguirmos evoluir e ao mesmo tempo manter a alma intacta, aí é o nirvana: melhorar pra melhor.
Domingo, 30 de maio de 2004.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.